Fissão Nuclear
A tecnologia que move toda usina nuclear do mundo hoje. Como funciona, riscos reais e mitos.
A ciência não é uma das muitas maneiras de conhecer o mundo; é a única maneira que pode nos levar à verdade.
Fissão Nuclear
Urânio, nêutrons e reação em cadeia.
O que é fissão nuclear?
Fissão nuclear é o processo que as usinas nucleares usam hoje. Ao contrário da fusão — que une átomos — a fissão quebra átomos pesados e instáveis em dois ou mais fragmentos menores, liberando energia.
O processo: um nêutron colide com um átomo de urânio-235. O átomo absorve o nêutron, fica instável, e se divide em dois átomos menores, liberando energia e 2 a 3 nêutrons livres. Esses nêutrons atingem outros átomos — criando uma reação em cadeia.
Em uma usina nuclear, essa reação é controlada por barras de controle que absorvem nêutrons. O calor gerado aquece água, produz vapor e move turbinas para gerar eletricidade.
A fissão produz cerca de 200 MeV de energia por núcleo — uma quantidade enorme comparada a qualquer combustível químico. Mas é aproximadamente 7 vezes menos eficiente que a fusão D-T por grama de combustível.
Fonte: artigo da Olívia Omagari, STEAM 2025; LIRA, J.C.L. Reação em cadeia. InfoEscola.
Comparativo rápido
- Fissão: quebra urânio/plutônio → usinas hoje → resíduos de longa duração.
- Fusão: une deutério/trítio → ainda experimental → mínimos resíduos.
As duas são nucleares. Mas são processos opostos — com perfis de risco, resíduo e potencial energético muito diferentes.
Como funciona uma usina nuclear de fissão?
Uma usina nuclear de fissão funciona de forma parecida com uma termelétrica — com uma diferença fundamental: em vez de queimar carvão ou gás, ela usa o calor da fissão nuclear.
O processo em 4 etapas
- Combustível: varetas de urânio enriquecido ficam dentro do reator.
- Reação: nêutrons bombardeiam o urânio, iniciando a fissão em cadeia.
- Calor: a energia liberada aquece a água do sistema de resfriamento.
- Eletricidade: o vapor move turbinas que geram energia elétrica.
O núcleo do reator é mantido submerso em água — que funciona como moderador (desacelera nêutrons) e refrigerante (remove o calor).
No Brasil — Angra 1 e Angra 2
O Brasil opera duas usinas nucleares em Angra dos Reis (RJ):
- Angra 1: em operação desde 1985, potência de 657 MW. Em novembro de 2024, a CNEN autorizou operação até 2055.
- Angra 2: em operação desde 2001, potência de 1.350 MW.
Juntas, respondem por cerca de 3% da geração elétrica nacional. Angra 1 gerou 4,78 milhões de MWh em 2023 — energia suficiente para abastecer uma cidade de 2 milhões de habitantes.
Fonte: NucNet, "Eletronuclear to Invest $550 Million as Angra-1 Gets Approval to Operate Until 2044", novembro de 2024. nucnet.org
Angra 3, que será gêmea de Angra 2 com 1.405 MW, está em construção. A Eletronuclear projeta início de operações em 2031.
Fonte: World Nuclear Association, "Nuclear Power in Brazil", atualizado em novembro de 2025. world-nuclear.org

Da bomba à usina — história da fissão nuclear
A fissão nuclear foi descoberta em 1938 pelos cientistas alemães Otto Hahn e Fritz Strassmann, com interpretação teórica de Lise Meitner e Otto Frisch. A descoberta foi logo militarizada: em 1945, os EUA detonaram as primeiras bombas atômicas sobre Hiroshima e Nagasaki.
O medo gerado por esse uso militar ainda assombra a percepção pública sobre nuclear — mesmo décadas depois. Mas já em 1953, o presidente Eisenhower lançou o programa "Atoms for Peace", propondo o uso civil da energia nuclear para geração de eletricidade.
A primeira usina nuclear comercial foi conectada à rede em 1956, no Reino Unido. Desde então, a tecnologia evoluiu: os reatores modernos são muito mais seguros que os de Chernobyl (1986), que usava um design soviético específico (RBMK) com falhas de segurança que não existem nos reatores ocidentais e brasileiros.
"Chernobyl não foi um 'acidente nuclear típico'. Foi o resultado de um design específico e de violações intencionais de protocolos de segurança durante um teste mal planejado."
Para que serve a energia nuclear além de gerar eletricidade?
Energia é só uma das aplicações da tecnologia nuclear. Outras:
Medicina
A medicina nuclear usa radioisótopos para diagnóstico e tratamento. O lútio-177, por exemplo, é usado no tratamento de câncer de próstata e neuroendócrino. Em janeiro de 2025, a Eletronuclear assinou acordo para produzir lútio-177 em Angra 2.
Fonte: World Nuclear Association, "Brazil", jan. 2025.
Propulsão
Submarinos e porta-aviões nucleares usam reatores compactos de fissão. O Brasil desenvolve tecnologia de propulsão nuclear para submarinos por meio do Programa Nuclear da Marinha (CTMSP).
Agricultura
Técnicas nucleares são usadas para conservação de alimentos por irradiação e para controle de pragas. O Brasil é referência mundial no uso da técnica do inseto estéril, desenvolvida no IPEN (Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, USP).
Indústria
Radiografia industrial usa raios gama para verificar soldas e estruturas sem precisar destruí-las — essencial em construção civil, petróleo e aeronáutica.